Não sei se pela minha singular capacidade de ver, ouvir e perceber tudo ao redor, se pela gigantesca e nata curiosidade feminina ou se pela eterna paixão pela Língua de Camões, diálogos e textos um tanto aterrorizantes parecem me perseguir, surgindo de todas as partes.
Dia desses estava eu saboreando um delicioso pastel num dos muitos cantinhos agradáveis de Curitiba, quando uma jovem bastante ajeitadinha entra na pastelaria a procura de um bombom desses caseiros. Eis que a ajeitadinha, apressada, pede à atendente: “Ah, tia, marca pra eu?”. Um trovão para os meus ouvidos. “Marcar eu marco, mas não fica bem você falando pra eu...”, diz delicada e sorridentemente a senhora atrás do balcão. Ao que a moça rebate: “Não, tia... se tivesse verbo depois daí seria mim, como: ‘pra mim pagar depois’.” E saiu com aquela pressa, mas ainda com tempo de um último alerta, lá de fora do comércio: “Não esquece hein, tia: se tiver verbo é mim, se não, você usa eu!”
Há quem defenda – e não são poucos – que na fala tudo vale. Sim, imensa é a variação linguística. Sim, o uso da língua depende de condição socioeconômica, de escolaridade, de aspectos geográficos, de um emaranhado quase infinito de fatores. Longe de defender uma penalidade àquele que não faz uso da norma culta, pois quem o faz?! Mas, particularmente, não consigo ser assim tão liberal. Há coisas que atingem o mais profundo de meus tímpanos (quando não de meus olhos, mas essa é outra história).
Como se não bastasse o pra eu da mocinha, ela ainda quis ensinar a tia da lanchonete para que jamais esquecesse a regra. Pensou que fazia bonito na frente de todo mundo. Pensando em estereótipos sociais: pra quem não entende lá muita coisa das regrinhas cultas de nossa língua, a ajeitadinha estava dando uma aula, uma super aula, pra simplória tia dos pastéis. Pra quem domina um pouquinho das normas da flor do Lácio, ela pagou foi um mico. E que mico!
Os defensores duma liberdade para uso da língua não se dão conta (em absoluto) que, como um prego na polenta, têm seu esteio fixado no banhado.
ResponderExcluirA defesa de um aspecto social da língua em detrimento doutro nos funda ainda mais em mares de desigualdade. A maré de ignorância não recua: mergulha ou bóia quem quer.
Se os mares da língua são mares nunca dantes navegados... estamos na ilha dos Bárbaros?
Lindo texto, Fá. Parabéns!
Beijo